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Campo Grande afunda a cada chuva e escancara problema crônico na infraestrutura

Sinais desligados, cruzamentos perigosos e alagamentos constantes mostram cenário de sobrecarga, avisa engenheira

22 fevereiro 2026 - 16h16Sarah Chaves

Campo Grande vive uma situação que já virou rotina para quem precisa sair de casa em dias de chuva. Semáforos piscando em amarelo, ou desligados, cruzamentos perigosos, ruas interditadas, asfalto arrancado e água invadindo avenidas importantes. O que deveria ser exceção tem se tornado regra. Para muitos moradores, é um problema crônico.

Nos últimos dias, depois de chuvas intensas, vários semáforos ficaram intermitentes ou simplesmente desligados. A situação foi registrada na Rua Thyrson de Almeida, na Avenida Graciliano Ramos, na Rua Raquel de Queiroz, na Avenida Ernesto Geisel e na Avenida Costa e Silva. Em alguns pontos, o sinal apresenta falhas mesmo quando não está chovendo, principalmente na região do bairro Aero Rancho e Pioneiros.

Na Rua Thyrson de Almeida, próximo ao cruzamento com a Graciliano Ramos, a cena é frequente. A empresária Luciana dos Santos, 33 anos, que trabalha na rua Globo de Ouro, que se funde a Thyrson, localizada na região e próxima ao córrego, relata que o problema é constante. “Dia sim dia não esse sinal fica intermitente, os carros passam buzinando arrancando, ninguém da prioridade, é um prenúncio de acidente fatal a qualquer momento”

Segundo ela, quando o semáforo entra em modo intermitente, motoristas disputam a passagem. Não há organização e o risco aumenta, principalmente nos horários de pico. Para quem trabalha e circula diariamente pela região, a insegurança já faz parte da rotina.

Além dos sinais com falhas, os alagamentos voltaram a atingir pontos conhecidos da cidade. A água subiu rapidamente após a chuva intensa, que entupiu bocas de lobo e fez o Lago do Amor transbordar em diferentes regiões da cidade.

Um dos pontos mais críticos foi registrado na Avenida Costa e Silva, em frente à Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), onde parte da via ficou interditada no sentido Centro. Motoristas precisaram reduzir a velocidade ou buscar rotas alternativas.

Outro ponto que voltou a preocupar foi o cruzamento da Avenida Calógeras com a Avenida Fernando Corrêa da Costa. No local, a água também subiu rapidamente, dificultando o tráfego e assustando quem passava pela região.

No início de janeiro, a história já tinha se repetido no bairro Monte Castelo. O trecho mais afetado foi na Avenida Rachid Neder, onde o asfalto voltou a ser arrancado após chuva forte. As placas se espalharam na via entre as ruas José Antônio e Padre João Crippa. Os estragos chegaram até a altura da rotatória com a Avenida Ernesto Geisel. O detalhe que chama atenção é que, nesse ponto, o pavimento havia sido recuperado há menos de dois meses, com o uso de 100 toneladas de massa asfáltica.

Para entender por que a cidade enfrenta alagamentos recorrentes, a reportagem ouviu a engenheira civil Rocheli Carnaval Cavalcanti, conselheira do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso do Sul (Crea-MS).

Ela explica que a situação não pode ser atribuída a um único fator. “Em primeiro lugar a Expansão Urbana sem planejamento adequado aparentemente é o fator estrutural mais determinante, porque a urbanização acelerada, sobretudo a partir das últimas décadas, provocou: um aumento expressivo da impermeabilização do solo (asfalto, telhados, calçadas, calçamento de áreas internas nos lotes fora dos índices urbanísticos determinados). A supressão de áreas naturais de infiltração de água; e a ocupação de fundos de vale e áreas naturalmente drenantes, isso altera o balanço hidrológico natural, gerando um maior escoamento superficial, redução do tempo de concentração e picos de vazão mais intensos e rápidos”, iniciou.

Ela destaca ainda que a solução não é simples, considerando o padrão de expansão urbana de Campo Grande. “A solução tecnicamente mais eficaz é integrada e baseada na gestão da bacia hidrográfica urbana, combinando macrodrenagem com soluções de retenção e infiltração, recuperação de fundos de vale; bacias de detenção distribuídas; e controle da impermeabilização futura”.

A engenheira detalha quais medidas deveriam ser priorizadas. “A requalificação de bacias de retenção e drenagem natural; a construção de piscinões estratégicos; a implantação gradual de pavimentação permeável; e a ampliação pontual de galerias”.

E reforça que, para a Capital, o caminho seria mais amplo. Para ela, apenas limpar bocas de lobo não resolve tudo. "É um procedimento essencial, mas não resolve totalmente o problema. Ela reduz as ocorrências frequentes, melhora eficiência hidráulica, auxilia bastante a sobrecarga do sistema, porém, ela não aumenta a capacidade hidráulica do sistema".

Outro ponto importante é o excesso de áreas asfaltadas e impermeabilizadas. Ao falar sobre isso, a engenheira é direta. Existe sim relação direta entre impermeabilização excessiva e aumento de enxurradas. O Plano Diretor deveria prever maiores índices de permeabilidade e mecanismos compensatórios obrigatórios. Sem controle da impermeabilização, qualquer sistema de drenagem ficará progressivamente sobrecarregado.

Enquanto a especialista aponta a necessidade de planejamento e soluções estruturais, moradores convivem com o medo de acidentes e prejuízos. Sinais intermitentes, ruas tomadas pela água e asfalto que não resiste às chuvas reforçam a sensação de que o problema vai além da manutenção pontual.

O JD1 Notícias procurou a Prefeitura de Campo Grande e a Agetran para comentar sobre os alagamentos registrados, as falhas nos semáforos e quais medidas devem ser adotadas para resolver o problema, mas não houve retorno até o fechamento da matéria.
                                                                                                                                                        

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