Conhecido por defender o tratamento de animais com leishmaniose, o veterinário e professor da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), André Luis Soares da Fonseca, é cotado para assumir a direção do Centro de Controle de Zoonose (CCZ). Ele pretende fazer uma administração transparente em suas decisões, ações e resultados. Acredita que, assim como a dengue, a leishmaniose é um problema mal enfrentado e que para combater as duas doenças é preciso trabalhar no controle do mosquito e reforça a importância do uso de telas em portas em janelas, costume em países tropicais, exceto o Brasil, que tem muita influência europeia em sua arquitetura. Além disso, destaca a contribuição do trabalho realizado pelas protetoras de animais e afirma que elas terão um contato permanente com órgão. Confira
JD - Quais serão as principais ações de sua gestão?
André Luis Soares - Quero que o CCZ seja exemplo de administração pública interna do município. Minha administração vai ser a administração de um cidadão cuidando de um órgão de saúde pública, que é a minha formação. Vou mudar totalmente a maneira de agir aqui. O cidadão tem muita reclamação em relação ao CCZ, que como órgão público precisa ser transparente nas suas decisões, nas suas ações e nos seus resultados e geralmente isso não acontece em órgão público. Vamos mudar isso. O CCZ vai ser um órgão eficiente. Essa é minha meta e vai ser eficiente com resultados na saúde pública. Não basta eu fazer, eu tenho de fazer com eficiência. Geralmente o gestor público e o fiscal não observam o princípio da eficiência e não adianta eu falar que gastei R$ 1 milhão em inseticidas para combater a dengue, se a dengue não diminui. Eu preciso rever a política do que está acontecendo. Nossas ações serão ações inteligentes, vamos fazer e avaliar, porque não vale a pena gastar o dinheiro público sem fazer uma avaliação de eficiência. Só para dar um exemplo, Campo Grande chegou a matar 18 mil cães por ano com leishmaniose e a doença humana só cresce. Por quê? Porque a intervenção é incorreta no aspecto da leishmaniose. Então nossa meta é fazer uma gestão transparente. Vamos fazer um CCZ legal, aberto, com políticas preventivas e não repressivas, a eutanásia vai ser uma forma de controle humanitário das doenças e não uma forma de controle como é hoje, porque isso é errado tecnicamente, não tem resultado e sai caro para o município. Então precisamos de toda uma engrenagem. Precisamos fazer uma reconstrução do pensamento da leishmaniose, que foi desconstruída para poder dar origem a essa política atual orientada no Brasil inteiro e que é uma política ineficaz.
JD - Existe muita expectativa por todo o seu histórico de defender o tratamento da leishmaniose. A partir do momento em que você assumir o CCZ, vai haver uma mudança da forma como a doença é tratada?
André Luis Soares - Radicalmente. Primeira coisa que vamos fazer nós já conseguimos juridicamente. Hoje o proprietário tem direito ao tratamento. Já existe medicamento liberado aprovado pelos Ministérios da Saúde e da Agricultura. Se existe um remédio aprovado, supõe-se que o tratamento também está liberado. A eutanásia obrigatória caiu já por conta desse instrumento, que é contraditório para a política por várias outras razões: é uma lei antiga que se aplicava há 54 anos para doenças no meio do mato; é uma lei fora do seu tempo, super atrasada. Além disso, essa nossa liminar que eu fiz e o autor é o Abrigo dos Bichos garante que o veterinário possa tratar com qualquer droga que existe no mercado, além da droga autorizada pelo poder público. Isso está no código de ética do médico veterinário. Essa é uma liminar que nós já conseguimos e o mérito final da liminar vai ser divulgado em abril. Temos uma boa expectativa de que isso seja aprovado porque essa liminar já foi dada pela turma em caráter de unanimidade. Então esperamos que ela seja ratificada. A construção da leishmaniose e da dengue é uma construção muito errada pelo poder público.
JD - Como seria a forma mais adequada de abordar a questão da dengue?
André Luis Soares - Hoje se cria um conflito muito grande por conta da dengue, que é uma doença que só acontece com o ser humano. É verdade que o problema são os terrenos baldios. Mas isso não causa só dengue, mas também rato, barata, escorpião... nós precisamos saber a causa fundamental disso, que é ambiental. Não é só culpa do cidadão. Esse terreno baldio de que nós falamos há 20 anos existia como mato. Então na verdade estamos procurando um bode expiatório para colocarmos o problema da dengue, que obviamente está nesse mato, mas ele sempre existiu e nunca foi problema nos últimos 20 anos. O que está acontecendo agora é uma alteração ambiental que influencia diretamente a população do mosquito. O combato correto por exemplo deveria ser o telamento das residências. Não importa se você mora no centro, perto de terreno baldio, na zona rural, você deveria fazer o telamento. Obviamente se você não tiver um terreno em volta sujo, a quantidade de mosquitos vai diminuir, mas o seu equipamento de proteção individual seria a colocação de tela nas residências. Em alguns países, como Índia, a malária foi reduzida em 70% pelo fato de colocar tela nas casas. O fato de ter telamento reduziu 70%. Se pensarmos que Campo Grande já teve surto de 46 mil casos, se tivéssemos a tela esse número cairia para 10 mil. Temos de pensar também que nunca teremos a doença controlada. Nunca teremos zero caso. Precisamos ter consciência disso, porque o mosquito está adaptado ao ambiente de uma maneira muito boa e por causa também de uma mudança ambiental. Hoje o mosquito é topo da cadeia alimentar dentro do município. Por que temos mais dengue nas cidades do que na zona rural? Além do adensamento populacional, hoje o mosquito virou topo da cadeia alimentar. Há 30 anos nós tínhamos o controle natural do mosquito, que era a perereca, a lagartixa, era a teia de aranha que nós tínhamos em casa. Hoje nós tiramos todo o controle ambiental de dentro de casa. A ideia que temos de proteção esterilizante, ou seja, não ter bactéria, não ter fungo, não ter protozoário é errado. Então o controle da dengue hoje está basicamente focado em uso de inseticida, que pode trazer a longo prazo efeitos deletérios ainda não estudados completamente, como aumento de câncer
JD - Esse mesmo problema existe com a leishmaniose?
André Luis Soares - No caso da leishmaniose, ela é uma doença transmitida pelo mosquito. Aí a saúde pública vai lá e tira o cachorro doente da casa da pessoa. A saúde pública não tira o cachorro e borrifa a casa, então ela deixa o mosquito. Se tira o cachorro da casa, o mosquito vai ir pra cima da pessoa. Então apesar do cachorro estar doente na sua casa, o cachorro é a barreira natural da casa. O mosquito chupa o cachorro para não chupar você. Aí tira o cachorro da casa, não tem telamento na casa, o mosquito entra. O Brasil é um país tropical sem hábitos tropicais. Na África as casas tem telas nas portas e janelas. Na Flórida, dos Estados Unidos, também. No Brasil nós não temos a cultura da tela. Nossa arquitetura é voltada para favorecer essa situação. Então o foco do nosso trabalho de combate à leishmaniose vai ser primeiro o jornalista, porque ele também recebeu informações erradas sobre o assunto. Eu fico triste quando vejo jornais falando para cuidar do seu vizinho, a mesma frase usada pro Hitler no nazismo. Você está arrumando conflito com o vizinho e o poder público precisa intermediar isso, porque muitas coisas o poder público conduz de forma errada, como o lixo. A forma como é feita a coleta de lixo não dá conta, porque muita coisa as pessoas não conseguem colocar na lixeira e jogam no meio mato, em terrenos baldios. É preciso colocar caçambas nas regiões de focos de dengue e de leishmaniose, porque o cidadão precisa limpar o terreno dele, mas muitas vezes ele não dinheiro para contratar uma caçamba para carregar esse lixo todo.
JD - É possível fazer uma parceria entre a prefeitura e o CCZ para colocar essas caçambas na cidade?
André Luis Soares - Nós já tivemos uma reunião há algum tempo com a Solurb. Pretendemos fazer todas essas políticas, porque é uma engrenagem. Não adianta uma peça só funcionar e as outras não, porque se não, não funciona. Eu preciso fazer a eutanásia humanitária. Queremos fazer a política intensa de castração. Eu não vou castrar o cachorro da madame do centro, apesar dela ter direito constitucional de ter o animal castrado, mas vou priorizar e identificar onde estão os focos de doença. Isso vai ser feito a custo zero para o cidadão, porque vai ser pago pelo município. Hoje, calcula-se que tenha em Campo Grande 162 mil cães. Nosso plano é que ao final do mandato do prefeito, daqui a quatro anos, reduzir essa população para 80 mil cães, agindo pontualmente. E aí entra o princípio da eficiência. Não adianta eu castrar 10 mil cães, mas eu castrei cães que não apresentavam problemas de saúde pública. Então a intervenção precisa ser consciente. Eu tenho de atacar o problema e atender principalmente quem não tem dinheiro. Vamos fazer a campanha de castração que primeiro vamos chamar de “Carrocinha do Bem”. Em vez de irmos até o bairro Dom Antonio, por exemplo, pegar os cachorros e trazer até o CCZ, vamos conversar com o presidente de bairro para ele conversar com os moradores e juntar cerca de 30 cães que vamos castrar gratuitamente. Quando conseguir esses 30 ele avisa e nós vamos com a carrocinha para ficar três dias: um dia de pré-cirúrgico, um dia de cirurgia, um dia de pós-cirúrgico e então o animal é devolvido ao dono. Nosso custo é muito barato, porque os profissionais nós já temos. Então para combater a leishmaniose eu preciso fazer a castração, a coleta do lixo, o controle ético da população. Ninguém gosta de matar animal. Então queremos fazer essa revolução, que não vai ser feita do dia para a noite. Os resultados vão aparecer em cerca de três, quatro anos.
JD - A eutanásia obrigatória já foi suspensa então?
André Luis Soares - Sim. O que nós estamos conversando com os donos é que o animal não precisa morrer, porque ele não é o risco de saúde pública. A presença do cachorro em casa não traz risco para o proprietário. O que traz risco é a presença do mosquito. A leishmaniose não é uma doença contagiosa, você pode encostar no xixi do cachorro ou no sangue dele em pegar a doença. É como a dengue. Agora se o mosquito picar o cachorro e picar o ser humano, sim. Então é necessário ter um controle do vetor e tratar o animal. É importante o uso de tela nas residências e uso de inseticida nos cães e aí o cão acaba sendo um protetor da casa. Indiretamente assim eu consigo controlar as doenças, tanto a leishmaniose como a dengue, porque o cachorro não pega dengue, mas o Aedes aegypti pica o cachorro também. E se o cachorro estiver impregnado de inseticida, o mosquito vai morrer. O que mais controla o mosquito é a temperatura. Esse ano provavelmente nosso surte de dengue será muito menor que em anos atrás, porque tivemos um inverno rigoroso ano passado. Temperatura abaixo de 21ºC mata o mosquito. E quando você tem muita dengue, você tem muita leishmaniose.
JD - O que de fato você pretende fazer com a leishmaniose?
André Luis Soares - Tem de fazer tudo de forma integrada. Primeiro vou tentar reduzir ao máximo a entrada de animais, informando os donos que eles têm direito ao tratamento. Vamos fazer um pronto-atendimento veterinário lá. O plano é fazer um hospital veterinário, mas por enquanto vamos fazer o atendimento clínico e se o caso for grave, encaminhar para uma universidade. Também vamos fazer campanha de doação de animais dos CCZ. Os animais doados serão castrados. E vamos castrar os animais da periferia. Fortaleza faz um trabalhado parecido e já diminui a eutanásia em 70%. A cada dez pessoas que chegavam com o animal, sete resolviam fazer o tratamento. Mas caso o animal esteja em situação de sofrimento e não possa ser tratado, ele vai para a eutanásia.
JD - O tratamento dos animais com leishmaniose será de responsabilidade do dono?
André Luis Soares - Isso. Do proprietário e do médico veterinário que vai assumir o tratamento.
JD - Como vai ser a relação do CCZ com as protetoras?
André Luis Soares – As protetoras fazem parte desse ponto que a saúde pública não consegue atuar bem, que é a doação de animais. A protetora é muito importante também porque elas fazem um dever que é do Estado que é de recolher o animal. Elas veem um cachorrinho na rua e leva para a casa dela. A constituição com relação ao animal silvestre é muito impositiva, mas não com o animal doméstico. Temos mania de achar que o cachorro é praga urbana. E a protetora cuida melhor do cão do que o Estado cuida de um presidiário. É por isso que precisamos das protetoras.
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