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Cultura

Antonio Fagundes contracena com Sandy em filme de terror

27 janeiro 2014 - 11h03Via Folha
Caso um e-mail de [email protected] chegue à sua caixa de entrada, pode ser de Antônio Augusto Fagundes, o chefe da comitiva equina Cavaleiros da Paz, em Alegrete (RS), ou de Antonio Alves Fagundes, dono de uma cantina escolar em Curitiba. Mas não do ator Antonio Fagundes.

Aos 64 anos, Fagundão é um "analfabyte" ("Não tenho computador, não tenho e-mail, não tenho celular esperto") por escolha. Para ele, há duas opções de vida: "Ou você passa o tempo todo limpando sua caixa de e-mail ou vai fazer outras coisas, ler, trabalhar".

Optou por fazer outras coisas. Várias outras coisas. De setembro de 2012 a setembro de 2013, foram duas novelas (está em "Amor à Vida", folhetim das nove da Globo que chega ao fim nesta sexta), duas peças e dois filmes. "Mesmo com a idade, ainda dá para trabalhar bem."

E dá para se aventurar também: ele comprou a ideia de protagonizar um filme de terror de baixo orçamento, "Quando Eu Era Vivo", que estreia em 31 de janeiro. O longa de Marco Dutra é baseado em "A Arte de Produzir Efeito sem Causa", romance de Lourenço Mutarelli, autor de obras "underground", como "O Cheiro do Ralo" e "O Natimorto".

"Sou fãzoca do trabalho do Mutarelli. HQs, livros, roteiros", conta. Cruzou com a mulher dele numa livraria e contou que era fã do marido. Dias depois, recebeu a ligação convidando para dar vida a um personagem mutarelliano. "Eu adorei!", diz com um tom de voz que lembra o coronel José Inocêncio (da novela "Renascer", de 1993).

No longa, ele faz o senhorio que aluga um quarto para uma estudante de Uberaba, com quem mal se encontra. Mas, ao contrário do que se vê na tela, ele a atriz que interpreta a guria têm proximidade. "A Sandy é uma querida. A gente se conhece, a Dinah, minha filha [hoje com 33 anos], é fã e eu ia a shows dela. Tenho uma relação bem carinhosa com ela."

A atuação da cantora, que inclui cenas de ritos satânicos, foi "muito boa" em sua avaliação. Sandy, grávida e de férias, não pôde lhe retribuir a cortesia, mas já declarou que era um prazer trabalhar com "o maior ator do país".

Quase todas as cenas foram gravadas num apartamento da avenida São Luís, no centro de São Paulo, onde começou a carreira que está prestes a completar meio século. "Comecei no teatro de Arena, ali do lado. Muito da minha adolescência e começo da vida adulta começou na região. Filmar lá foi uma volta. Gostei muito", diz, puxando a calça.

Fagundão pode se dar ao luxo de usar meias azuis com desenhos de placa de trânsito sob o tênis Conga e ser levado a sério. "Sou muito pontual e exijo pontualidade de quem trabalha comigo."

Ou além: a entrevista marcada para as 17h no teatro foi movida para 16h30 porque o ator chegou antes ao teatro, em Perdizes - minha primeira entrevista em dez anos a ser adiantada.

Atrasou, rodou
A fama de não perdoar atrasos confere, ele atesta. "O cara que chegou atrasado ao teatro chega uma vez só, na segunda ele nem vem." No começo, diz, foi difícil lutar contra o atraso institucionalizado, mas venceu. "Começaram a corresponder. Eu não quero exercer meu poder de chegar atrasado, então não exerça o seu. Quem vai perder é você."

A fórmula, ele acredita, é vacina contra a subida da fama à cabeça de qualquer um - inclusive à sua cabeça branca. "A fama é ruim, qualquer um pode ter. O bom é sucesso. E sucesso exige trabalho", explica ele a lógica espartana.

"Atuar é a profissão mais disciplinada que existe. É rígido. Não entendo quem diz que é coisa de boêmio", explica.

O ator Kiko Bertholini, que faz no filme um dos filhos de Fagundes, confirmou no breve convívio um mito sobre o ator. Colegas comentavam a fama de bater o olho numa página de texto e decorá-la de imediato. "Cheguei no set e vi ele fazendo uma cena de quatro minutos de monólogo sem cortar, como se tivesse se apropriado da essência do texto."

Scripts não são os únicos textos que sabe de cor. "Ele é uma biblioteca ambulante. Ama livro, ama filme. Tudo ele justifica com exemplos reais, com um trecho de um livro do Stephen King, por exemplo", diz Bertholini.

Isso porque Fagundes é fãzoca também de livros de medo. O terror é o gênero da vez, ainda que a comédia esteja na sua caixa de predileções. "É na comédia que você sente se está dominando ou não." Só textos astutos, como a peça "Tribos", em cartaz, ou toparia entrar num projeto de besteirol? "Faria, já fiz muito. Mas seria o melhor besteirol, a melhor comédia. Estou atrás da excelência. Dos outros e da minha."

Atualmente a busca é no teatro, com o espetáculo que deveria ficar em cartaz até o fim de dezembro, mas cujo sucesso o trouxe de volta no último dia 17, com temporada prevista para até 27 de abril. "Eu não pretendo sair deste teatro não. Tenho outros projetos."

Todos serão montados com a cooperativa que fundou com o filho caçula, Bruno Fagundes, 24, e com o diretor Ulysses Cruz, entre outros. O esquema não facilita a vida. "Pelo contrário, dificulta. O produtor caiu no vício. Ou tem patrocínio ou não monta."

Leis de incentivo não ajudam? "Não. Olhando de fora, dá um ar de que as coisas estão funcionando, mas 70% dos teatros têm menos de cem lugares. A impressão de que aumentou a oferta é contradita pelo número de pessoas."

Já a bonança do cinema nacional dificilmente passa de uma miragem. "Falam de retomada do cinema. Retomada do que, cara pálida? O filme que mais vendeu teve 15 milhões de espectadores num país de 200 milhões. Não é nem 10% da população. É pouco demais."

As bilheterias, defende, deveriam ser grandes o suficiente para pagar a produção por si só. "Temos que fazer filmes que se paguem. Que seja possível pagar com a bilheteria, para fugir desse círculo perverso que é o patrocínio."

Ele mesmo se orgulha de, em 47 anos de carreira, ter tido só três patrocínios. E defende os ingressos de sua peça, de até R$ 70. "É uma coisa que me chateia muito. Sempre falam de ingresso mais barato no teatro. O ingresso mais barato pro jogo do Flamengo custava R$ 250 e o cambista vendeu por R$ 800. A gente que deveria estar cobrando isso, e não o Flamengo."

E cabe à indústria descobrir o que os pagantes querem. "O público não vai ao cinema ver carro explodindo. Vai pra ver quem está dentro do carro." Para ele, a necessidade de bons roteiros se estende também às novelas.

De coronel a Deus
Há 37 anos ele concilia trabalhos comerciais, na rede Globo, com outros mais artísticos, geralmente em São Paulo, onde sempre morou. "São três dias ali e três aqui, como sempre foi." Aproveita os intervalos de cenas dos folhetins para ler peças e livros que, "de vez em quando", viram projetos. "A gente tem muito tempo para ler, por incrível que pareça", diz, enquanto vai se levantando.

"Tá ótimo, né?" Fim da entrevista, aos 46 minutos. Fagundes entra na sala transformada em estúdio fotográfico, cumprimenta cada uma das pessoas que está lá trabalhando e veste camisa e paletó para as fotos.

"Agora ele vai abrir a caixa de abelhas em cima de mim", diz sobre o fotógrafo Daniel Klajmic, que jogara tinta acrílica na cara do ator em outra sessão, em 2011. Os dez presentes riem.

Passados 30 minutos de foto, começa a ficar irrequieto. Salta da plataforma que girava. "Ficou ótimo, né?", e sai andando em direção ao camarim do teatro, onde se apresentaria em uma hora.

Mas não se nega a continuar falando da rotina, enquanto anda pelo prédio.

Fagundes grava no Projac, central de estúdios da Globo no Rio, de segunda, terça e quarta. "Eles têm que estar na hora lá, ou vai dar problema. Se não conseguirem gravar nesses dias, não gravam as minhas cenas e ponto."

A assertividade parece ir ao encontro das notícias de que o veterano lideraria um grupo de globais que luta para começar a ganhar cachê ao participar de programas do canal que não sejam novelas.

"Isso tudo é bobagem. Não é nada disso." E ponto final.

Quanto ao seu personagem na TV, um médico garanhão que perde a visão e a dignidade, ele diz ser um respiro do tipo que associaram a seu rosto.

"Fiz muito coronel. Já quebrei alguns tipos, mas eles têm uma certa inércia, de 'se tá certo, vamos manter'. O que não é de todo mal." E exemplifica que uma vez perguntaram a Sydney Pollack por que ele convidava Robert Redford para sempre interpretar o mesmo papel. "Levou 40 anos para criar um personagem, e agora vou sair dele?", respondeu.

Em vez de sair do molde, Fagundes foi encaixado num novo: o de patriarca. "Acho que é a idade. Eu já tô como pai oficialmente", diz ele. Ao contrário de Susana Vieira, com quem foi casado em "Amor à Vida", ele não tem vontade de fazer um papel sexy e independente.

"Se você pegar todos os pais que estou fazendo, é uma experiência fabulosa."

Depois de ter interpretado Deus e o rei Lear, Antonio Fagundes diz que ainda olha espetáculos com desejo. "O Shakespeare escreveu 37 peças. Eu só fiz uma, ainda tem 36." Alguma com a qual ele sonhe? "Meu sonho são 1.800. Tenho 1.800 peças, filmes e cidades que eu queria fazer, e tô tentando fazer o maior número possível deles."

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