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Atriz de 'Xingu' deixa o Amazonas para estudar medicina na UFMG

17 abril 2012 - 11h24Arquivo Pessoal

Desde a estreia de “Xingu”, a rotina de uma das integrantes do elenco do filme sobre a saga dos irmãos Villas Bôas tem sido bastante diferente. No cinema, Adana Kambeba, pelo Registro Administrativo de Nascimento de Índio, ou Danielle Soprano Pereira, pela Certidão de Nascimento, vive sua primeira experiência, dando vida a Kaiulú. A personagem indígena faz par romântico de Cláudio Villas Bôas, interpretado pelo ator João Miguel. Com a repercussão do filme, vieram dezenas de entrevistas. “Não imaginava isso na minha vida”, revela. Longe das telonas, Adana também está cercada por novidades. Ela é um dos 12 estudantes que ingressaram na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) por meio do vestibular indígena em 2012.

Caloura do curso de medicina, Adana nasceu em Manaus, no Amazonas, e pertence à etnia Kambeba, encontrada nas regiões da Amazônia brasileira e peruana e também no estado do Ceará. A indígena, que também é cantora, compositora e instrumentista, sempre teve uma forte ligação com as artes, mas o ingresso no universo cinematográfico veio por acaso. “Minha amiga, que é bailarina e coreógrafa, insistiu muito para que eu fizesse o teste. Numa média de três semanas, ligaram para mim confirmando minha aprovação e daí em diante foram acertos contratuais e outros detalhes para que eu adentrasse na sétima arte”, conta.

A personagem vivida pela manauara tem poucas falas e grande parte da interpretação é baseada no olhar. Feliz com o resultado, Adana conta que vem recebendo diversos elogios pela atuação. “Devo muito aos preparadores de elenco do filme, Mariana Medeiros e Christian Duurvoort, e ao diretor Cao Hambuguer. Se fiz uma boa atuação, é porque fui bem preparada e bem dirigida”, avalia.

Ela também se mostra satisfeita com a mensagem que o longa-metragem tem passado ao público. “É um filme de época, mostrando a criação do Parque do Xingu, como era a visão do governo a respeito de nós indígenas. Retratou bem e mostrou a importância da preservação. Mas também tem uma abordagem atual porque está falando de demarcação de terras indígenas, de cultura, de preservação da natureza, o que nos remete à questão de Belo Monte e à questão do Código Florestal”, pontua.

Vestibular
Se a entrada na sétima arte se deu por influência de uma amiga, o ingresso na faculdade de medicina foi uma decisão bem pensada. Segundo Adana, ela escolheu a UFMG entre quatro universidades públicas para prestar vestibular. “Avaliei o que oferecia cada faculdade e como são as pessoas. Vim de um lugar de pessoas muitos calorosas, muito afetuosas. Em Minas, elas são muito receptivas, muito família. E isso ameniza a saudade porque estou rodeada de calor humano”, conta. O processo seletivo, de acordo com a manauara, é semelhante a qualquer vestibular, porém adaptado aos indígenas. “Parece muito com a prova do Enem pela associação das questões com o dia a dia”.

A preparação foi feita em casa, em Manaus, e também contou com a ajuda de videoaulas postadas na internet. Adana, que fala o português e o tupi amazônico, diz que se dedicou bastante à produção de textos. Ela fazia diversas redações e pedia a amigos que têm um bom domínio de ortografia que as corrigissem. O esforço valeu a aprovação e, há cerca de um mês, trocou o convívio com o seu povo pelas salas de aula em Belo Horizonte.

Assim como várias de suas escolhas ao longo da vida, a opção pela medicina também está estreitamente ligada com os Kambeba. Adana pretende aliar os conhecimentos da academia com a tradição de seu povo. “Há uma tendência em acreditar que a medicina ocidental é mais eficaz ou vice-versa. O que existe são conhecimentos diferentes, e é possível que ambas se enriqueçam para promoção da saúde indígena”, afirma.

Adana, assim como outros indígenas, é acompanhada por um tutor na Universidade Federal de Minas Gerais. Segundo ela, uma das funções desses professores é dar suporte aos alunos no desenvolvimento de projetos ligados aos povos de origem. No caso de Adana, este trabalho estará ligado à saúde dos Kambeba.

E este projeto não é só uma atividade escolar para a caloura do curso de medicina. Para ela, que avalia a possibilidade de fazer um curso preparatório de pajé, cuidar da saúde de seu povo é uma missão. “Quando eu terminar a faculdade, a minha intenção e a minha missão é voltar para o Amazonas para trabalhar com o meu povo, com outros povos e também com quem não é indígena. Quero viver, quero morrer lá, é minha terra querida”, diz.

Via G1

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