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Pesquisa mostra como drogas desestruturam família de dependentes

04 dezembro 2013 - 12h16Via G1
Os dez anos de casamento da bancária Elisangela Farizel, 35 anos, com o autônomo Vinicius Farizel, 39, foram problemáticos desde o início. Alcoólatra por 24 anos, Vinicius enfrentou altos e baixos neste tempo devido ao seu vício, passou por duas internações entre 2012 e 2013 e agora, quer recuperar sua relação afetada pela dependência química.

O casal de Suzano (SP), ainda sem filhos, sabe que está doente. Ele, por assumir seu vício. Ela, após uma década de frustrações e renúncias, busca ajuda para melhorar seu psicológico no Al-Anon, grupo de ajuda a familiares e amigos de alcóolicos. “Tinha vezes que não deixava de sair, mas minha cabeça ficava em casa”, diz Elisangela. “Eu me trancava no quarto, porque se saísse de lá, sabia que ia fazer besteira”, complementa Vinicius.

Essa história se repete na casa de milhares de brasileiros, que sofrem por ter algum parente usuário de drogas, é o que mostra o Levantamento Nacional de Famílias dos Dependentes Químicos (Lenad Família), feito pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), divulgado nessa terça-feira (03).

Segundo o estudo, o dependente químico afeta as atividades diárias e o psicológico dos familiares: 58% das famílias com algum usuário de drogas têm afetada a habilidade de trabalhar ou estudar, 29% das pessoas estão pessimistas quanto ao seu futuro imediato e 33% têm medo que seu parente beba ou se drogue até morrer, ou alegam já ter sofrido ameaças do familiar viciado.

A pesquisa apontou ainda que ao menos 28 milhões de pessoas no Brasil têm algum familiar dependente químico. Os dados foram levantados entre junho de 2012 e julho de 2013. Um questionário com 115 perguntas foi respondido por 3.142 famílias de 23 capitais brasileiras. Foi a primeira avaliação em âmbito nacional focada nas famílias de dependentes.

Complicações financeiras
Elisangela e Vinicius conseguiram se reerguer após o marido passar por tratamento que custou quase R$ 20 mil reais, parte da quantia bancada pelo convênio médico. O gasto é considerado alto por ambos. Usar o dinheiro do orçamento familiar para bancar a reabilitação de um parente dependente é a realidade de 58% das famílias entrevistadas.

Mas essa pagar a reabilitação não é possível para boa parte da população, que, nesses casos, pode procurar pelos Centros de Atenção Psicossociais (Caps Álcool e Drogas), serviço oferecido pelo Ministério da Saúde.

No entanto, segundo o Lenad, metade das famílias ouvidas na pesquisa sequer ouviu falar sobre o Caps. Da outra metade que tem conhecimento a respeito, 54% procuraram pelo serviço. Deste total, 31% relatam que o paciente não gostou do tratamento e 24% disseram que o atendimento foi rápido e eficiente.

'Estratégia ineficiente'
De acordo com Ronaldo Laranjeira, um dos coordenadores da pesquisa, os números sobre o Caps indicam o pouco acesso ao tratamento pelo meio público porque “falta divulgação por parte do governo e investimento”.

Segundo ele, o serviço oferecido pelos centros deve integrar o paciente e a família, e “não persistir na política de redução de danos, que é equivocada e mantém o doente na sua doença”, explica o médico, referindo-se à metodologia empregada atualmente pelos centros públicos.

A estratégia parte do princípio que não deve haver uma imediata e obrigatória extinção do uso de drogas e sim um planejamento que reduza os danos aos usuários e aos grupos sociais que convivem com ele.

“Os serviços deveriam estimular a abstinência [que retira totalmente a droga do viciado], mas não quer dizer que seja algo fácil. O governo ainda defende uma política de redução de danos, mas a população afetada é que tem que dar a palavra sobre qual a política correta, no caso, aquela que pare o uso de drogas por parte do usuário”, explica o especialista.

Além disso, Maria de Fátima Padin, outra coordenadora da pesquisa, defende a necessidade de planejar melhor a prevenção ao uso de drogas por parte do governo, com foco em grupos de risco, como parentes (incluindo crianças) de usuários. "Medidas isoladas é jogar dinheiro no lixo. Fazer palestras e cartazes apenas não são eficazes. É preciso mudar a proposta", explica.

Helvecio Magalhães, secretário de Atenção à Saúde do Ministério da Saúde, disse em entrevista ao G1 que o governo concorda que precisa realizar um trabalho de divulgação para difundir os Caps para a população, o que reduziria o percentual de famílias que desconhecem o serviço, como apontado na pesquisa da Unifesp.

Magalhães afirmou ainda que a escolha entre as metodologias de “redução de danos” e de “abstinência” é um debate mundial e que não existe apenas um só caminho terapêutico para sanar uma condição crônica.

“Não tem essa de Caps ser menos eficiente que hospital. Está provado que não é verdade. A média de eficiência da [metodologia] abstinência nos melhores serviços é de cerca de 30%. O que precisamos é ter uma rede aberta e digna para atender as mais variadas formas”, disse o porta-voz do Ministério da Saúde.

Sobre os planos de prevenção, Magalhães explica que, de fato, não há nenhuma solução simplista que resolva o problema, como o uso de cartazes. “Mas estamos fazendo investimentos a médio e longo prazo, mirando a criança na escola, formando o professor, para que essa ‘coesão social’ seja a maior condição protetora contra as drogas”, conclui.

Famílias perseverantes
Enquanto persiste a indefinição sobre qual o melhor método científico que leve à "cura" do vício das drogas, famílias que passaram ou ainda passam por este problema recomendam outra coisa: ter esperança e fé.

Foi o caso de Cleide Cauduro, de 56 anos, de São Paulo. Dos quatro filhos, três se envolveram com drogas há 12 anos - a filha mais velha e um casal de gêmeos. Atualmente, os três abandonaram o vício, todos se formaram na faculdade um deles se formou em psicologia com ênfase na dependência química.

"A gente acha que não vai acontecer com a gente, mas acontece. A gente se sente culpada e se pergunta 'onde foi que errei?'. Tudo isso abala", diz Cleide.

"É importante que o doente saia da negação, deixe a vergonha de lado e procure ajuda mais cedo. A família também precisa perceber que tem que se tratar e buscar informações a respeito da doença. Sim, porque é uma doença", diz Elisângela, ao lado do marido, na expectativa de que não ocorram recaídas no futuro.

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