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Relações Brasil-Estados Unidos não devem retroceder no governo Trump, diz cônsul

Cônsul também afirmou que o turismo deve ser incentivado

17 novembro 2016 - 08h26Agência Brasil

As relações entre o Brasil e os Estados Unidos já avançaram a tal ponto que não devem sofrer retrocesso no governo Donald Trump. A opinião é do cônsul-geral dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, James Story, para quem os dois países têm uma relação profunda, que sempre vai ser respeitosa. Como exemplo, ele citou a Câmara Americana de Comércio Brasil-Estados Unidos que já tem 100 anos, além de empresas instaladas no território brasileiro há muito tempo.

James Story afirmou que os dois países são parceiros em muitas questões, incluindo os programas de combate ao  vírus Zika e questões de segurança. "Somos duas democracias nas Américas, as maiores. Isso é importante para nós. A relação com o Brasil é importante", disse à Agência Brasil, depois de participar do debate Estados Unidos: uma análise após o resultado das eleições, organizado pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV/EPGE), em Botafogo, na zona sul do Rio.    

O cônsul lembrou que a intenção dos Estados Unidos é duplicar o comércio com o Brasil, que atualmente gira em torno de US$ 100 bilhões. Acrescentou que atualmente 99% das pessoas que voam em aviões da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer) são americanas, porque a maioria das aeronaves é exportada para os Estados Unidos. "Isso é um exemplo da relação que temos. Sempre vai ser muito profunda e vai cobrir vários temas".

Investimentos

De acordo com Story, um dos setores que devem ser incentivados pelo governo norte-americano no Brasil é o de turismo. Ele citou a parceria com a escola de samba Unidos da Tijuca, que vai levar para a avenida em 2017 enredo sobre a união das músicas do brasileiro Pixinguinha e do americano Louis Armstrong e que deve incentivar a vinda de turistas ao país. "Acho que os Estados Unidos poderiam mandar milhões mais de turistas para o Brasil, que oferece tudo", disse, lembrando que os setores de infraestrutura, de petróleo e gás e de segurança também estão nas perspectivas de novos investimentos norte-americanos no país. O cônsul destacou que a exportação de carne bovina do Brasil tem a tendência de se expandir, como também a área cibernética. "Essas são questões em que os dois países têm que trabalhar de forma conjunta", adiantou.

Durante o debate, o cônsul evitou fazer previsões sobre o governo Trump, mas destacou que "uma coisa é fazer campanha, outra é governar". Ele classificou de transparente o processo eleitoral norte-americano e acrescentou, em bom português, em uma analogia com o futebol, que treino é treino e jogo é jogo. "A votação é a voz do povo americano. Devemos esperar o que vai ser a plataforma. Governar é bem difícil. Temos 50 estados e a opinião pública".

Segundo Story, é preciso esperar. "Não vamos especular. Não devemos ter tanta ansiedade sobre as mudanças".

Perspectivas

O diretor da FGV/EPGE, Rubens Penha Cysne, disse que é preciso esperar para ver se as promessas de campanha vão se materializar ou se tomarão direção contrária. Para ele, a eleição de Trump já causou reflexão no mundo. "As pessoas não estavam preocupadas com a questão de distribuição de poder, de geopoilíca e agora estão pensando. Não é trivial quando acorda um gigante adormecido de pessoas que não estavam pensando nesse assunto. Isso é uma consequência que já ocorreu", afirmou.

Outra alteração decorrente do resultado da eleição americana, de acordo com o professor, foi o aumento da incerteza na economia mundial. "Os ativos estão oscilando mais. Existe a perspectiva de que se houver queda de impostos nos Estados Unidos, isso vai fazer com que a taxa de juros se eleve lá fora. Logo, a queda da taxa de juros que estava prevista aqui no Brasil, vai ser mais devagar. Isso é o que a gente tem agora. O resto, vamos saber aos poucos"

Para o ex-embaixador do Brasil nos Estados Unidos Roberto Abdenur, o presidente eleito norte-americano não preparou previamente a sua equipe de transição de governo por acreditar que isso não daria sorte e ele não ganharia a eleição. Isso atrasou a elaboração de uma plataforma definitiva de trabalho e ainda da equipe de governo a partir de janeiro de 2017, quando tomar posse. Segundo Abdenur, é muito cedo para saber como e qual será o Trump que vai assumir a presidência dos Estados Unidos. Ainda assim, o embaixador avaliou que haverá diferença entre os perfis de campanha e do que será presidente.

"O Trump que vai assumir a presidência dos Estados Unidos será razoavelmente diferente do Trump candidato, que foi longe demais em uma série de colocações, sem se dar conta das implicações das posições que verbaliza, dos custos, dos ônus e das consequências disso para os próprios interesses dele e dos Estados Unidos. Uma vez presidente da República, terá que ser muito mais comedido e moderado do que foi durante a campanha, resta ver em que medida", disse após o debate.

Obamacare

Um dos temas que devem ser reavaliados, de acordo com o embaixador, é o programa de saúde, conhecido como Obamacare criticado pelo candidato. Já eleito, depois de um encontro na Casa Branca, com o presidente Barack Obama, Trump admitiu que não tinha informações completas sobre o programa e que poderia manter algumas das medidas. " Acho que isso é um bom sintoma da disposição dele de dialogar, mesmo com opositores. Isso me deixa mais tranquilo quanto ao governo Trump", completou.

Roberto Abdenur também destacou que a composição da equipe de transição, que vem sofrendo críticas por ter a participação de três filhos, passa um sinal de falta de preparo. "Os filhos não deveriam estar na equipe de transição e não poderão assumir os negócios dele, porque seria um conflito de interesses. Ele tem que botar a fortuna nas mãos de um gestor profissional, separado da família. Há coisas que certamente o Trump nem pensou e nem sabe bem como são as regras, mas vai aprender".

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