Abandonar, deixar sem água ou comida, ao relento, sem uma casinha ou um cobertor; tratar com socos, e não com gestos amigáveis; deixá-lo adoecer sem procurar ajuda ou um veterinário. Estes são alguns dos comportamentos mais visíveis do ser humano quando entramos no assunto maus-tratos a animais — e que, em determinados momentos, causam a morte de cães ou gatos, considerados as principais vítimas. Episódios em Campo Grande não faltam, mas a maior referência do momento é o caso do cão comunitário “Orelha”.
Recentemente, um caso despertou a atenção na capital sul-mato-grossense, quando um major da Polícia Militar resgatou um cão em situação de abandono, sem água e comida. Dias após o resgate, porém, o episódio acabou se judicializando devido às ações tomadas por quem se intitula “tutor”.
Mas o que explica essa atitude contra um ser, às vezes pequeno, indefeso e que só queria um colo ou até mesmo um carinho para abanar o rabo em forma de gratidão? Estresse? Frustração? Raiva? A psicologia consegue encontrar respostas capazes de decifrar o que está por trás da severidade do ser humano contra um ser vulnerável?
A psicóloga Emmanuele Pereira da Silva explica que a crueldade contra animais não nasce do acaso e tampouco pode ser reduzida a um único perfil psicológico. Segundo ela, o comportamento está, na maioria das vezes, ligado a dificuldades emocionais profundas. “É interessante perceber que o maltrato já pode surgir de algumas dificuldades emocionais e cognitivas, ou seja, pessoas que não conseguem regular suas emoções e que têm uma baixa tolerância à frustração, que podem descarregar assim a sua agressividade em quem é mais vulnerável.”
Além do aspecto emocional, há também um fator social determinante. A especialista aponta que quem cresce em ambientes violentos tende a internalizar que a agressão é uma forma legítima de resolver conflitos. “E, em alguns casos, percebe-se que o animal é visto como um objeto. Nesses casos de maltrato aos animais, então ele não é considerado ali um ser senciente. E essa desumanização facilita a crueldade, porque ela pode reduzir a percepção de sofrimento.”
Emmanuele reforça que não existe um único perfil responsável por esse tipo de conduta. A psicóloga destaca ainda que há situações em que a crueldade contra animais pode estar associada a transtornos de personalidade, como o antissocial e o psicopático. No entanto, ela alerta: nem toda pessoa que maltrata animais possui um transtorno.
“Essa crueldade pode ser um indicador precoce de risco para comportamentos mais violentos e amplos, funcionando como um sinal de alerta para nós, profissionais da saúde mental e também para a justiça.”
Outro ponto levantado por Emmanuele é o uso do animal como uma espécie de “válvula de escape” emocional. “Só que essa válvula de escape é utilizada para emoções mal reguladas, como raiva, frustração e baixa ou nenhuma tolerância à frustração, em que isso decorre de ser um comportamento agressivo a algo vulnerável e que não pode se defender.”
Sobre a possibilidade de tratamento, a psicóloga ressalta que o tema é delicado. “Alguns comportamentos não conseguem fazer a remissão de um comportamento violento para que eles tenham empatia, porque já traz ali um transtorno de personalidade.”
Emmanuele também chama atenção para o impacto desse tipo de violência sobre crianças. “As crianças que crescem em ambientes de violência contra animais podem naturalizar esse comportamento e reproduzi-lo, como uma forma de repetição. Isso ocorre porque o aprendizado infantil é baseado por modelos comportamentais”, relata.
Esse ciclo, segundo a psicóloga, compromete o desenvolvimento da empatia e da sensibilidade moral. “Esse ambiente pode comprometer o desenvolvimento da empatia e da sensibilidade moral, que aumentam o risco de perpetuação da violência. Oferecer modelos de cuidado, respeito e afeto com os animais é uma forma de prevenção futura”, pontua.
A psicóloga conclui destacando que a questão vai além da proteção animal, envolvendo valores humanos e sociais. Segundo ela, a psicologia não aborda somente o fenômeno, mas busca oferecer caminhos de tratamento e prevenção. “A psicologia está para ajudar neste momento”.
Deixe seu Comentário
Leia Também

Figura emblemática, colunista Dácio Corrêa morre em Campo Grande

Pet precisa de atendimento? SUBEA leva serviço móvel ao Caiçara na próxima semana

Todos em Ação leva mais de 300 serviços gratuitos ao Jardim Tarumã neste sábado

MP recomenda programas anticorrupção em prefeituras de Mato Grosso do Sul

Sábado começa com sol, mas previsão não descarta chuva em MS

Evento do MPT-MS aborda inclusão e apoio familiar a jovens LGBT+

MP apura denúncias de mau cheiro causado por indústria em Jaraguari

Cuidador é condenado a 14 anos de prisão por matar cadeirante em Campo Grande

Campo Grande recebe neste sábado a 4ª Corrida Unimed nos altos da Afonso Pena


Animais estão virando alvo fácil dos humanos para agressões (Divulgação/PCMS)



