A primeira barreira que encontrou para ser mecânica foi em casa. No curso para aprender a profissão dos sonhos enfrentou a “estranheza” de ser a única mulher. Na faculdade de engenharia mecânica é uma das três estudantes em uma turma de aproximadamente 70 pessoas. Mas foi no mercado de trabalho, predominantemente masculino, que mecânica Deny Loubet se deparou com a maior desigualdade por ser mulher, a salarial.
“Sempre quis ser mecânica, e achei que a maior dificuldade que ia enfrentar ia ser o convívio no trabalho, mas o maior obstáculo é o contratual. Eu ganho menos que um homem. Comparando meu salário com o de profissionais que fazem a mesma coisa que eu, meu salário é quase metade do que o deles”, critica Deny.
A discriminação estampada no salário de Deny é comprovado pelo estudo Estatísticas de Gênero: Indicadores Sociais das Mulheres no Brasil, divulgado nesta quarta-feira (7) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com dados, as mulheres ganham, em média, 75% do que os homens ganham.
Mas o preconceito em atuar em uma área predominantemente masculina começou em casa. “Na verdade eu sempre quis ser mecânica, só que eu venho de uma família mais conservadora. Meu pai é conservador. Quando eu decidi ser mecânica eu tive o apoio da minha irmã e da minha mãe. Pro meu pai eu fui contar depois que eu já tinha feito o curso e entrado na oficina”, narra.
A mecânica conta que também enfrentou dificuldades quando entrou no mercado de trabalho. “Quando eu terminei o curso estive em todas as oficinas de Campo Grande e levei meu currículo, mas nunca recebi uma ligação”, desabafou. Mesmo assim, Deny não perde o bom humor. “Eu sempre falo, se uma empresa mexe com diesel ela pode procurar porque tem um currículo meu perdido”.
O cenário profissinal com poucas mulheres atuando é uma reflexo cultural de um estado conservador, onde a mecânica ainda sente receio das pessoas em ver mulheres dentro de oficinas. Deny compara Mato Grosso do Sul com outros estados e destaca que em outras regiões é mais comum encontrar mulheres trabalhando como mecânicas.
Apesar disso, a mecânica enfatiza que ser mulher não a desqualifica para a função. “Eu sou pequena e tem coisas que eu não vou conseguir fazer, da mesma forma que tem muita coisa que outros mecânicos não fazem. Tem gente que monta e desmonta um motor, mas não sabe regular o bico, serviço que eu faço. Dificuldade todo mundo têm, todos têm um limite, precisamos ver isso de uma forma natural”, argumenta.
Há quase dois anos em uma oficina, Deny destaca que apesar das barreiras que já enfrentou hoje é tratada da mesma forma que os colegas de profissão. “Eu não fui jogada nessa profissão, eu escolhi ser mecânica. Precisei me esforçar, estudar, pesquisar muito. Eu não cai de paraquedas. Hoje eu não tenho nenhum problema aqui. Eu sou uma colega comum, trabalho igual eles aqui e tenho as mesmas responsabilidades”.
No Dia Internacional da Mulher, nesta quinta-feira (8), a mecânica frisa a importância do respeito. “Eu acho que a gente não tem que pedir para ser respeitada, a gente tem que ser respeitada e pronto”.

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Divulgação (Fernanda Palheta)



